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domingo, fevereiro 07, 2016

Miguel e Carla, Carla e Miguel... Conto





-Carla...Carla...
Corre aqui, veja o que acabou de chegar.
-Nossa!!!
Era um convite, acompanhado de um maço de flores e uma garrafa de Champagne:
"As flores para colorir ainda mais teu dia, a Champagne para te alegrar e o convite...
Te espero amanhã as 8 da noite, no endereço marcado."
Miguel falava pouco, mas era direto.
Se falasse mais estragaria o estilo, a pompa e até a fama que o acompanhava mesmo fora dos limites de Portugal.
Trabalhar com os melhores vinhos do mundo, escolhendo, avaliando, comprando, vendendo, era o trabalho dele.
Com as mulheres muitas vezes as poucas palavras eram a princípio uma desvantagem, mas só a princípio.
Carla era para Miguel uma surpresa boa.
Aos 37 anos, bem vividos, encontrar a bela Carla era como um sonho.
Morena, com pouco mais de 1 metro e sessenta, 60 quilos, sorriso de deixar fabricante de creme dental hipnotizado.
Tudo isso estava incrivelmente em segundo plano.
Ela era inteligente, falava o suficiente e deixava as coisas fúteis fora de seu vocabulário.
Como se não existissem.
Era perfeita.
Na parte do coração história dos dois era parecida.
Miguel sofreu uma decepção amorosa que o deixou completamente fora do eixo.
Carla não tinha sorte no amor.
Um noivado terminado pouco antes da data marcada para o casamento era quase um trauma.
Ainda bem que quase.
-Olá Carla!
Carla trocava e-mails, fotos, mensagens, palavras... Mas não conhecia Miguel pessoalmente.
Conhecia pelo falatório que ele provocava por onde passava e por vender as uvas da quinta de sua família para um cliente de Miguel.
O Alto Douro vinhateiro ficava literalmente aos pés de Miguel.
Ele era consultor dos melhroes restaurantes de Nova Iorque, era responsável pela escolha de vinhos para grandes empresários, jogadores de futebol, artistas, cantores e até chefes de estado.
-Olá Miguel! Estou feliz por estar aqui. A Champagne me alegrou e as flores colocaram cor no dia nublado que fez hoje.
Miguel olhava cada detalhe, cada músculo do rosto de Carla.
Carla falava de tudo.
Política, esportes, cultura...
Miguel já não se aguentava.
Era tão direto que estava prestes a declarar nocaute.
Estava mesmo nocauteado pela beleza simples de Carla.
-O vinho senhor.
A garrafa do Barca Velha estava longe de ser uma ostentação.
Miguel poderia servir qualquer vinho do planeta, mas no Douro, com Carla, tinha que ser o Barca Velha.
Carla que não era uma conhecedora, mas era produtora de uvas e claro, portuguesa.
Se rendeu ao rótulo mais famoso de Portugal e levou a taça ao nariz.
Antes mesmo de sentir os aromas, viu estampado na garrafa: 1985.
Era o ano do seu nascimento.
Aos 30 anos, Carla nunca havia provado o famoso vinho.
-Nossa!!! É o ano do meu nascimento.
Miguel provou, levou ao nariz, e aprovou com o respeito que se deve ter a esse tipo de vinho.
Os dois conversaram por mais de duas horas.
Saíram andando pelas ruas do Porto sem pensar em nada.
Ao lado do Rio Douro, finalmente veio o beijo.
Parece incrível mas depois disso Carla e Miguel passaram dias sem se falar.
Não era falta de interesse nem de um nem de outro.
Era aquele medo da paixão avassaladora, que alguns seres conseguem controlar ou pensam que conseguem.
Nesse caso pensaram por quase uma semana.
-Está lá...
-Estou sim...
O segundo encontro foi ainda mais intenso.
O beijo, o passeio pela Ribeira e a noite juntos...
No dia seguinte, nada de contato (ou contacto como diriam).
Dessa vez passou mais de uma semana.
Dessa vez sem telefonema.
Até que Miguel estacionou seu carro na quinta da família de Carla em São João da pesqueira e foi logo entrando.
Estranho que os dois se olharam como se fosse a primeira vez.
Miguel tinha 1 metro e 80, mas naquele momento parecia mais.
Sabia o que queria de uma forma tão avassaladora que tinha aspecto de um gigante.
Carla desceu as escadas e olhou fixamente para os olhos de Miguel.
Saíram sem palavras pelas estradas sinuosas até o Porto.
Os dois sabiam exatamente o que queriam sem nenhum acordo, nenhuma palavra, como se as almas tivessem conversando.
Daquele dia em diante nunca mais souberam onde um começava e onde outro terminava.
Viraram um só.

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